sexta-feira, 24/07/2026

Nós e o turismo

Fernando Almeida
É sabido que o turismo é, desde há muito, um setor de grande importância na economia portuguesa. Inicialmente era o Algarve, que muito ligado ao turismo britânico, quase monopolizava as atenções do Estado e dos investidores privados, mas com o evoluir dos tempos o “sol e praia” passou a ser apenas um dos atrativos de Portugal para a classe média europeia. As preferências, tanto geográficas como temáticas, são volúveis nas sociedades modernas e o “bronze” nascido do sol do sul, que em tempos era sinal de estatuto social elevado entre os povos do frio e pálido norte europeu, passou a ser acusado de grandes malefícios para a saúde. Vai daí que os turistas, embora continuem a apreciar e desfrutar das praias de areia branca e fina deste nosso cantinho, começaram a procurar também outros destinos e outros aspetos da realidade portuguesa. E na verdade, temos muito mais que “sol e praia” para oferecer a quem nos visita.
Em 2025, o peso direto do setor do turismo no Produto Interno Bruto (PIB) português rondou os 14%, mas se pensarmos no impacto indireto que o setor tem na economia, esse valor é certamente muito superior.
Não vale a pena referir que o turismo é fruto das sociedades prósperas pós-industriais, porque em séculos anteriores só os muito ricos e poderosos se podiam dar ao luxo de passear e desfrutar outras regiões para descanso e lazer. Para o comum dos mortais de sociedades essencialmente agrícolas não havia férias e mesmo o descanso semanal restringia-se aos domingos e dias santos, para cumprimento das “obrigações religiosas”. Mas a vida foi mudando... Primeiro a tarde de sábado juntou-se ao domingo como tempo de descanso, foi a chamada “semana inglesa”, que reduziu a jornada de trabalho das 48 horas para as 45 horas semanais (redução implementada em grande medida na sequência do 25 de abril), e mais tarde a semana de 40 horas em cinco dias, com o fim de semana como hoje está em uso para a maioria das pessoas. Já agora, está a iniciar-se a semana de quatro dias de trabalho, e três de descanso, mas por enquanto não se sabe ao certo quando será generalizada. Se o tempo livre aumentou em cada semana, aumentou também, com a criação de férias pagas, o que com a “democratização” das viagens aéreas e em automóvel particular, viabilizaram fluxos de milhões de pessoas todos os anos em busca de locais de descanso e diversão.
Em 2025 entraram em Portugal quase vinte milhões de turistas, o que tem evidentemente um impacto enorme nas nossas vidas. Embora seja um setor importante para Portugal e para a nossa região, nunca se deve perder de vista que é também um setor altamente sensível à conjuntura internacional e que torna o país muito dependente de fatores externos.
Mas o que me levou a escrever estas linhas foi o conflito mais ou menos permanente entre os novos interesses do turismo e os velhos e novos interesses de outros setores da sociedade rural em que vivemos. Se o turista do “sol e praia” exige água de boa qualidade e areal limpo, podendo apreciar a agitação noturna de bares e discotecas, o turista que procura as aldeias e serras do interior do país vem geralmente em busca de um “Éden” imaginário, de uma certa pureza e tranquilidade.
Como turista urbano que quase sempre é, quem nos visita tem sobre o mundo rural onde deseja passar as férias o anseio de ver não uma paisagem humanizada com suas gentes e atividades, mas antes um espaço natural o mais possível próximo do “selvagem”. Claro que, se esse espaço tiver alguns “nativos” bem castiços, melhor, desde que não perturbem o gozo de férias dos turistas.
É assim que necessariamente surgem conflitos entre os ditos “nativos” (que na verdade somos todos nós, os residentes habituais) e as suas atividades, e os turistas e os seus desejos. Mas talvez mais ainda entre os ditos “nativos” e os gestores ou proprietários dos equipamento turísticos, que provavelmente têm mais medo do conflito entre as atividades das comunidades rurais e os desejos dos turistas, que os próprios turistas.
Quero eu dizer com isto que quando um trator está a lavrar ou a roçar mato, ou os chocalhos das vacas se ouvem às sete da manhã e isso pode acordar o turista, quem mais se aflige são os empresários turísticos, e não os turistas, porque esses, se não sabiam que as vacas usam muitas vezes chocalhos e que por aqui se trabalha desde cedo, passam a saber que por cá também se trabalha duro e a vida prossegue com ou sem turistas.
Convém referir que o turismo em espaço rural pode ser importante para o desenvolvimento das regiões onde ocorre, mas também que isso só tem valor e interesse se der vantagem aos residentes. Se para desenvolver o turismo se comprometem outras atividades económicas, como a agricultura ou a silvicultura, mas se principalmente se compromete a vida quotidiana dos residentes e a sua liberdade, então o turismo dá mais desvantagem que vantagem. É preciso ter a noção que o mundo rural, as aldeias, as pessoas e suas atividades, não existem para agradar aos turistas ou para os atrair, e se eles não gostarem do que nós somos, então que procurem outros destinos. Não nos venham dizer se as vacas podem ou não ter chocalhos ou se podemos ou não lavrar assim que o céu fica claro, porque isso pode perturbar o sono de quem se deita pela madrugada e quer dormir as manhãs na cama!
E o que se aplica aos turistas aplica-se aos novos residentes, que vêm até nós, por vezes de países distantes e à procura de um sonho edílico de um território que só existe no seu imaginário. Se não gostam do que somos, voltem para as suas respetivas terras onde tudo possivelmente é mais que perfeito, mas se querem estar entre nós respeitem a cultura e o modo de ser, de fazer, de pensar e de viver de quem cá está, de quem muitas vezes já tem no cemitério da aldeia os pais, os avós e as bisavós.
Mas, como sempre, se respeitarem o nosso modo de ser e de viver, penso que serão todos bem-vindos, tanto os ricos e intelectuais que querem tranquilidade e bom ambiente, como os que vêm trabalhar para conseguir uma vida melhor para os seus filhos. Por isso digo: juntem- se a nós, mas respeitem quem nós somos.
Em 2025, o peso direto do setor do turismo no Produto Interno Bruto (PIB) português rondou os 14%, mas se pensarmos no impacto indireto que o setor tem na economia, esse valor é certamente muito superior.
Não vale a pena referir que o turismo é fruto das sociedades prósperas pós-industriais, porque em séculos anteriores só os muito ricos e poderosos se podiam dar ao luxo de passear e desfrutar outras regiões para descanso e lazer. Para o comum dos mortais de sociedades essencialmente agrícolas não havia férias e mesmo o descanso semanal restringia-se aos domingos e dias santos, para cumprimento das “obrigações religiosas”. Mas a vida foi mudando... Primeiro a tarde de sábado juntou-se ao domingo como tempo de descanso, foi a chamada “semana inglesa”, que reduziu a jornada de trabalho das 48 horas para as 45 horas semanais (redução implementada em grande medida na sequência do 25 de abril), e mais tarde a semana de 40 horas em cinco dias, com o fim de semana como hoje está em uso para a maioria das pessoas. Já agora, está a iniciar-se a semana de quatro dias de trabalho, e três de descanso, mas por enquanto não se sabe ao certo quando será generalizada. Se o tempo livre aumentou em cada semana, aumentou também, com a criação de férias pagas, o que com a “democratização” das viagens aéreas e em automóvel particular, viabilizaram fluxos de milhões de pessoas todos os anos em busca de locais de descanso e diversão.
Em 2025 entraram em Portugal quase vinte milhões de turistas, o que tem evidentemente um impacto enorme nas nossas vidas. Embora seja um setor importante para Portugal e para a nossa região, nunca se deve perder de vista que é também um setor altamente sensível à conjuntura internacional e que torna o país muito dependente de fatores externos.
Mas o que me levou a escrever estas linhas foi o conflito mais ou menos permanente entre os novos interesses do turismo e os velhos e novos interesses de outros setores da sociedade rural em que vivemos. Se o turista do “sol e praia” exige água de boa qualidade e areal limpo, podendo apreciar a agitação noturna de bares e discotecas, o turista que procura as aldeias e serras do interior do país vem geralmente em busca de um “Éden” imaginário, de uma certa pureza e tranquilidade.
Como turista urbano que quase sempre é, quem nos visita tem sobre o mundo rural onde deseja passar as férias o anseio de ver não uma paisagem humanizada com suas gentes e atividades, mas antes um espaço natural o mais possível próximo do “selvagem”. Claro que, se esse espaço tiver alguns “nativos” bem castiços, melhor, desde que não perturbem o gozo de férias dos turistas.
É assim que necessariamente surgem conflitos entre os ditos “nativos” (que na verdade somos todos nós, os residentes habituais) e as suas atividades, e os turistas e os seus desejos. Mas talvez mais ainda entre os ditos “nativos” e os gestores ou proprietários dos equipamento turísticos, que provavelmente têm mais medo do conflito entre as atividades das comunidades rurais e os desejos dos turistas, que os próprios turistas.
Quero eu dizer com isto que quando um trator está a lavrar ou a roçar mato, ou os chocalhos das vacas se ouvem às sete da manhã e isso pode acordar o turista, quem mais se aflige são os empresários turísticos, e não os turistas, porque esses, se não sabiam que as vacas usam muitas vezes chocalhos e que por aqui se trabalha desde cedo, passam a saber que por cá também se trabalha duro e a vida prossegue com ou sem turistas.
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